31 de julho de 2015

Juiz Kaiut determina mais um despejo contra Guarani e Kaiowá: dessa vez, a Retomada das Mães


 
Uma ordem de reintegração de posse poderá ser cumprida a qualquer momento contra a Retomada das Mães, tekoha – lugar onde se é – Itaguá, no município de Caarapó, Mato Grosso do Sul. O despejo, expedido pela Justiça Federal de Dourados, será contra 50 famílias Guarani e Kaiowá que vivem em 30 hectares de um território reivindicado como tradicional, na divisa com a Terra Indígena Pindoroky, já delimitada e também sob ordem de reintegração.  
O despejo de Itaguá foi determinado pelo juiz Fábio Kaiut Nunes, o mesmo que decidiu por outras três reintegrações, com prazo de execução em andamento: Apika’i, Tey Juçu e Pindoroky. Na mira de Kaiut estão cerca de 200 famílias Guarani e Kaiowá que podem voltar a sobreviver, do dia para a noite, às margens de rodovias no cone sul do MS: entre as cercas das fazendas que transformam em propriedades privadas territórios tradicionais e o asfalto, paisagem de miséria e morte para os Guarani e Kaiowá.
Sobre a situação de Itaguá, a Fundação Nacional do Índio (Funai) entrou com recurso contra o despejo no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), em São Paulo, e aguarda decisão. Nesta quinta-feira, 30, um oficial de justiça esteve na Retomada das Mães para constatar quantos são os Guarani e Kaiowá que estão na área a ser reintegrada ao suposto proprietário. No tekoha, a resistência já começou com rezas e rituais.  
Conforme informações da equipe do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que atua na região, os indígenas são enfáticos: não sairão do tekoha, encravado entre plantações de cana. Com a paralisação do procedimento demarcatório de Pindoroky, os Guarani e Kaiowá não ocupam a totalidade do território. A superpopulação então provoca um quadro societário de confinamento e como não há espaço suficiente para o plantio, passam fome.
A solução, portanto, foi ocupar áreas tradicionais que na verdade compõem um único território, na região: o Tey Kue. A Retomada das Mães, parte desse mosaico caleidoscópico, é assim chamada porque a ocupação foi organizada e executada majoritariamente por mulheres; mães e avós cansadas da situação de miséria e violência. Há cerca de um ano, no início de agosto de 2014, fizeram a retomada e ergueram um acampamento de lona. Resistiram a tudo: ameaças, pistoleiros, fome. Prometem agora resistir à reintegração.
Uma cruz para Denílson  
Em fevereiro de 2013, o corpo de Denílson Barbosa, Guarani e Kaiowá de 15 anos, foi encontrado sem vida depois que o jovem, o cunhado e o irmão de 11 anos foram atacados pelo fazendeiro Orlandino Carneiro Gonçalves, de 61 anos, com propriedade incidente no tekoha Pindoroky. Denílson levou um tiro à queima roupa, sem nenhuma chance de defesa, e mesmo sem apresentar o menor perigo contra a integridade física de seu assassino. No local em que o corpo do jovem foi encontrado, está enfincada uma cruz.
Na época, uma Guarani e Kaiowá declarou que as mulheres estavam cansadas de enterrar os próprios filhos – mortos por tiro, fome, suicídio. A cruz para Denílson tornou-se um símbolo para os indígenas. A retomada não tardou. Em busca da Terra Sem Males, enfrentaram pistoleiros e ameaças, pouco mais de um ano depois da morte de Denílson, e agora afirmam que enfrentarão a tentativa da Justiça de despejá-las, junto com suas famílias, de uma terra reduzida e devastada, mas Guarani e Kaiowá.

A invisibilidade indígena em Amambai

Foto _ Terra Indígena Amambai / Arquivo Cimi

 Luiz Peixoto para o Cimi*

“A gente não quer só comida A gente quer comida, diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída para qualquer parte” (Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto)
A música “Comida”, dos Titãs, banda de Rock dos anos 90, hoje mais pop, sempre me inspirou como um hino ao desejo. A ação do humano, como ser pensante, é a busca da satisfação de seus desejos e suas necessidades, de todas, das mais básicas, como alimentação, trabalho, segurança... às mais difusas, como lazer, arte, experimentação... Isso sempre me pareceu intrínseco ao ser humano, visto que, a maioria das pessoas, nunca está satisfeita com o que tem, buscando ir sempre além, na conquista de bens, de valores e de espaços de participação.
A cidade de Amambai sempre foi um espaço de pouca opção para a juventude, que como ser humano, quer mais do que tem sempre. A cidade é linda, não pelos pontos turísticos, afinal são praticamente inexistentes, mas sim pela sua gente. É uma cidade sui generis, singular, no tocante a sua população. Somos uma mescla de povos. Aqui existem os sulistas, oriundos e descendentes dos gaúchos, catarinenses e paranaenses. Temos os paraguaios e seus descendentes. Temos nordestinos, mineiros, paulistas... Afinal aqui foi um dos “eldorados” dos anos passados, onde pessoas de vários cantos buscavam oportunidades de riqueza, fama e sucesso. Mas aqui já tinha gente. Aqui viviam, e vivem, os Guarani e Kaiowá, povo indígena com história, cultura, valores e forma de vida e produção dos saberes e fazeres.
Segundo dados oficiais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e da Fundação Nacional do Índio (Funai), Amambai possui uma das maiores populações indígenas do estado do Mato Grosso do Sul, com aproximadamente 9 mil seres humanos, vivendo em três aldeias no município (Amambai, Limão Verde e Jaraguari), perfazendo um porcentual de 25% da população do município, que, como todo ser pensante, quer ir além de onde está.
Quando ando na cidade, vendo os serviços públicos e privados, parece que não existem indígenas em Amambai. Eles não aparecem. Eles não são notados. No comércio, maior fonte de emprego por aqui, não vi nenhum trabalhador indígena. Se existe, não são nas lojas e mercados que eu já estive nesse meu ano e meio de volta à cidade. Nos espaços públicos só os vejo nos trabalhos braçais, e são poucos.
Só como exemplo, a câmara municipal tem 13 vereadores. Tem vereador de diversos segmentos: fazendeiro, empresário, advogado, ex-prefeito, professor, enfermeiro, radialista... mas não tem nenhum Guarani e Kaiowá. Sendo eles 25% da população não seria meio óbvio que fossem também 25% da representatividade, pelo menos 3 vereadores deveriam ser indígenas. Mas também não existem mulheres entre os vereadores. Coisas da representatividade parcial e viciada que temos no atual sistema político. Muitos dos nobres edis falam em nome dos povos indígenas, ou pelo menos tentam passar essa impressão, mas até quando seremos nós, os não-índios, a falar em nome deles?
Em tempo de acirramento das retomadas de terras pelas comunidades indígenas da região, Amambai e entornos, me incomoda o silêncio dos representantes do povo, do parlamento. Parece que não existem indígenas em Amambai. Os que defendem a classe dos fazendeiros, dos latifundiários, têm se manifestado. Os outros não. Ou não existem outros representantes na câmara? Será que são todos fazendeiros e eu me enganei na minha primeira análise? Pode ser, eu não estava aqui na última eleição, não sei quem pagou cada candidatura, afinal como dizia minha vó “quem paga a banda, escolhe a música”.
No dia a dia da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), em Amambai, temos diversos Guarani e Kaiowá. Pelo menos lá eles e elas existem. Aparecem. São protagonistas de um processo de reafirmação cultural e valorativa. Confesso que tenho muito orgulho dos meus acadêmicos.
Como bem disse o líder negro estadunidense, Martin Luther King, “o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons”. Até quando seguirão caladas as pessoas de bem? Até quando as igrejas fingirão que a questão do conflito agrário não existe em Amambai e região? Até quando o preconceito contra os indígenas será visto como natural e aceitável? Até quanto parecerá que não existem indígenas em Amambai?
Precisamos, urgentemente, colocar a temática na roda de debate das pessoas de bem. Não na ótica da assistência, não como passivos dos processos sociais, mas sim entendendo-os como protagonistas de sua história, como seres pensantes, que tem desejo e necessidade de ir além de onde estão.
Esse tema deve ser refletido desnudado das paixões utópicas. Sem mitificar. Sem pré-conceitos, sem preconceitos. Partindo da visão que somos todos cidadãos amambaiense, com os mesmos direitos e as mesmas obrigações em relação ao município.
Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?
Eu tenho fome e sede de direitos, de igualdade, de oportunidades. Não para mim apenas, mas para todas as pessoas. Enquanto houver um humano, um ser pensante, sem direito, igualdade e oportunidade, eu não terei os meus realizados. Afinal, quero muito além de pasto e água. Quero e desejo vida de qualidade para todos e todas. Que fique claro, não sou antropólogo, não estudo a temática indígena. Sou apenas mais um ser pensante... E sigo pensando! Ler original AQUI.

* Docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul

Amazônia Legal em Foco

Veja vídeo "Comida" AQUI.
 

30 de julho de 2015

Dom Erwin Kräutler: "O caos estava programado de antemão"


 
 
138 índios assassinados (sem contar as tentativas de homicídio), 135 suicídios, 785 crianças indígenas mortas, 118 casos de morosidade na regularização de terras e 84 invasões possessórias. Isso apenas em 2014, segundo o relatório Violência contra os povos indígenas do Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). 
Presidente do CIMI, Dom Erwin Kräutler é bispo do Xingu há 50 anos e um dos maiores opositores da construção da usina de Belo Monte, e por isso conta com autoridade e experiência para explicar o grau de intolerância da sociedade em relação aos indígenas, que sofrem incessantes ataques aos seus direitos desde a chegada do homem branco ao dito “Novo Mundo”.
Para ele, essa problemática está engendrada em nossa cultura: “grande parte do material didático das escolas deve ser revisado. A verdadeira história do Brasil precisa ser contada não do ponto de vista dos que ‘descobriram’, mas do ponto de vista das vítimas que são, em primeiro lugar, os povos indígenas”.
O religioso austríaco naturalizado brasileiro foi consultado pelo Papa Francisco para a formulação de sua Encíclica “Laudato Si” e critica o processo de desenvolvimento brasileiro na mesma linha que o Papa alerta para as consequências do capitalismo desenfreado: “optar por um crescimento que deteriora cada vez mais o meio ambiente é cortar o galho em que estamos sentados”. E chama atenção para a demarcação de áreas indígenas como “uma forma de salvaguardar parte da Amazônia contra a fúria do agronegócio, das empresas mineradoras e hidrelétricas”.
A seguir, em entrevista exclusiva para o Greenpeace Brasil, Dom Erwin Kräutler fala sobre a violência, a mortalidade, o preconceito e a indiferença que ainda permeiam as relações com as comunidades indígenas.
 
Greenpeace Brasil O Relatório do Cimi sobre Violência Contra os Povos Indígenas, lançado semana passada, registrou uma escalada na taxa de violações contra esses povos, com crescimento de 42% no número de assassinatos. No texto de abertura do relatório, o senhor pede misericórdia aos indígenas que “encontram-se hoje feridos entre o Chuí e o Oiapoque”. A que você atribui este aumento?
 
Dom Erwin Kräutler: Há vários motivos para a escalação da violência. O primeiro está ligado à não-demarcação das áreas indígenas. O governo é refém do agronegócio e a bancada ruralista é contra demarcações previstas na constituição. A PEC 215 quer tirar do Executivo a prerrogativa de demarcar áreas indígenas e fazer depender qualquer demarcação de uma votação no Congresso. Isso equivale a dizer que não haverá mais demarcação, porque a bancada ruralista, cujo número de assentos no Congresso aumentou, não vai votar a favor de área indígena. Percebe-se, em segundo lugar, um ressurgimento de antipatia e aversão aos indígenas. Mesmo que eles estejam amparados pela Constituição em seus direitos a “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e o direito originário às terras que tradicionalmente ocupam” (Art. 231), continua arraigada no coração de muitas pessoas a ideia de que índio “não é gente”, é “bicho do mato”, é “bugre”, é “caboclo”, é inferior, pária, segregado. Não se admite que os indígenas tenham direito às suas terras ancestrais já que não as exploram para o mercado e a exportação. Numa sociedade orientada pelos ditames neoliberais de investir e lucrar, os indígenas são considerados obstáculos para o desenvolvimento. Lula declarou isso em 2006, em um banquete oferecido pelo então governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, quando o então presidente identificou índios, quilombolas, ambientalistas e até o Ministério Público como “entraves” para o progresso.
 
Greenpeace Brasil: Entre os dados do relatório, talvez o mais impressionante seja a taxa de mortalidade de crianças entre 0 e 5 anos, que é de 785 mortes em 2014. Em Altamira, município atingido pelas obras da hidrelétrica de Belo Monte, a taxa de mortalidade na infância chegou a 141 a cada mil crianças, número dez vezes maior que a taxa nacional. O que causa estas mortes no Brasil? E em Altamira, Belo Monte contribui com esse quadro?
 
Dom Erwin Kräutler: Há várias causas para este descalabro que envergonha o país, mas vejo um relacionamento entre a mortalidade de crianças e os grandes projetos governamentais que parecem ser algo sacrossanto, decidido nos altos escalões do governo sem levar em conta quem vive na área. A decisão e as deliberações sobre a execução do projeto são tomadas em lugar “asséptico”, como se o povo não existisse e muito menos o meio-ambiente, que é a casa em que esse povo vive. A decisão é indiscutível e irrefutável, pois o projeto é considerado de “interesse nacional”. Uma vez decidido o projeto, encaminha-se o EIA-RIMA. De acordo com a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), o primeiro item analisado em impactos ambientais é “a saúde, a segurança e o bem-estar da população“. Mas este ponto é o mais negligenciado, haja vista a situação caótica de Altamira. Já contando com o afluxo de milhares de pessoas, em vez de providenciar uma infraestrutura hospitalar e de assistência médica, deu-se luz verde à construção, relegando as condicionantes exigidas pelo Ibama ou pela Funai a segundo plano. No caso de crianças indígenas, a realidade é mais vergonhosa. Em muitas aldeias, faltam medicamentos elementares. Com todos os avanços de tratamento de saúde no mundo, aqui morre criança acometida por diarreia e vômito e outras causas facilmente tratáveis. Quem não se revolta com um orçamento muito aquém do necessário para a saúde e bem-estar precários da maioria dos brasileiros? Quem não fica indignado quando percebe o abismo entre os que tem condições de se tratar nos melhores hospitais e o povo madrugando em fila para marcar consulta ou aguardando atendimento, deitado no chão de um corredor de posto de saúde ou hospital superlotados?
 
Greenpeace Brasil: Além da violência física, o preconceito e a indiferença são marcantes na sociedade brasileira. Muitas pessoas se manifestam contra os indígenas em nossas redes sociais, culpando-os pelos danos florestais, dizendo que não pagam impostos, trancam estradas, obstruem o desenvolvimento etc. Muitas vezes, o que reforça esse preconceito é o acesso de índios a serviços básicos como telefonia e internet. Até quando vestem calças e camisetas viram alvo de crítica, como se deixassem de ser índios. Por que o senhor acha que existe tanta hostilidade em relação aos indígenas e como romper com isso? 
 
Dom Erwin Kräutler: Grande parte da sociedade brasileira ainda não entranhou os parâmetros da Constituição de 1988, que consagra os direitos dos povos indígenas. Continuam em voga padrões ultrapassados de constituições anteriores que defendiam a tese da “incorporação dos silvícolas à comunhão nacional”. É isso que os anti-indígenas de norte a sul querem: aplicar os parâmetros das antigas constituições. O índio tem que se tornar brasileiro “comum“, tem que abdicar à sua identidade de pertencer a esse ou aquele povo. A atitude de muitos anti-indígenas não deixa de ser esquizofrênica: por um lado, índio tem que deixar de ser índio, tem que sair da aldeia, tem que largar sua maneira de ser, seus cocares e pinturas corporais para ser um brasileiro igual a todos. Mas, por outro lado, se o índio veste calça jeans e camiseta estampada, usa telefone celular e fala bem português, aí os defensores de brasilidade idêntica para todos começam a gritar que ele não é mais índio. Preconceito gera intolerância e hostilidade. É puro racismo! E racismo é crime. O preconceito começa cedo. Grande parte do material didático de nossas escolas tem que ser revisado. A verdadeira história do Brasil precisa ser contada não do ponto de vista dos conquistadores, dos que “descobriram” e dominaram a Terra de Santa Cruz, mas do ponto de vista das vítimas que são, em primeiro lugar, os povos indígenas e depois os negros trazidos como escravos. “O Brasil não tem ideia da riqueza humana e cultural que se perde ao insistir em uma política que não se cansa de tentar transformar índios em pobres, ‘integrados’ às levas de marginalizados que ocupam as periferias das grandes cidades” escreveram Maria Rita Kehl e Daniel Pierri no Dia do Índio, em 2015, na Folha de S. Paulo.
 
Greenpeace Brasil: A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário, prevê a consulta e a participação dos povos tradicionais na produção de leis e políticas que interferem em suas vidas. Qual a importância desse mecanismo na defesa dos direitos indígenas? A Convenção tem sido respeitada nos casos de grandes obras de infraestrutura, como as hidrelétricas planejadas para a Amazônia, a exemplo de Belo Monte e Tapajós, próxima tragédia em iminência na região? 

Dom Erwin Kräutler: No caso de Belo Monte, não houve consulta nem participação dos indígenas. Houve um faz-de-conta de consulta. Representantes do governo foram a diversas aldeias para explanar aos índios o que iria acontecer, querendo convencê-los de que a hidrelétrica só traria vantagens. A fim de dobrar os índios, apresentaram mapas e deitaram falação em forma de monólogos muitas vezes incompreensíveis. Os índios não tiveram oportunidade de expor seu ponto de vista. Em diversos casos, a barreira linguística impediu desde o início uma oitiva de verdade. O pessoal enviado a determinada aldeia não falou o idioma indígena e não se deu ao luxo de deixar acompanhar-se por intérpretes fidedignos. Realidade é que nenhum dos povos atingidos teve oportunidade de se manifestar. A iniciativa nada mais foi do que camuflar de “oitiva” uma mera explanação sobre a planejada hidrelétrica. O desembargador Souza Prudente alertou, em agosto de 2012, que a consulta teria que ser prévia e não podia ser “póstuma”, mas na realidade a consulta nem sequer foi póstuma. Do ponto de vista da legislação vigente, ela é ilegal pois fere os parâmetros da Constituição da República Federativa do Brasil e da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Uma notícia alvissareira neste contexto pode ser a decisão tomada pela Justiça Federal de Itaituba e pelo Ministério Público Federal que proibiram o licenciamento da Usina São Luiz do Tapajós enquanto não for realizada “a consulta prévia, livre e informada sobre o assunto“. Antes de qualquer licenciamento, tanto os povos indígenas como os ribeirinhos terão que ser ouvidos. O Ministério Público Federal solicitou ainda à Justiça que determine levantamentos mais amplos sobre os impactos ambientais na região. Faço votos de que nenhuma instância superior venha agora derrubar esta sentença, alegando “interesse nacional“.
 
Greenpeace Brasil: Entre diversos ataques do Congresso aos direitos indígenas, em junho foi reinstalada uma Comissão Especial para analisar e aprovar o PL 1610, que trata sobre mineração em territórios indígenas. Segundo o deputado Índio da Costa, presidente dessa Comissão, os índios não perderiam nenhum direito, apenas teriam mais um: o de escolher se aceitariam ou não a mineração em suas terras. Se aprovada a lei, com base no histórico brasileiro neste tipo de processo de consulta, o senhor acha possível que povos contrários impeçam a mineração em suas terras? 

Dom Erwin Kräutler: A mineração em terras indígenas é uma verdadeira espada de dois gumes. Se os índios não “cederem”, parece-me fácil prevalecer a tese das mineradoras que a pesquisa e lavra de minerais nobres como ouro, diamante e nióbio (usado em usinas nucleares) são de “interesse nacional” e de fundamental importância para o país. O lobby das mineradoras no Congresso Nacional é grande, e é difícil acreditar que algum povo indígena levará vantagem contra as mineradoras. Se os indígenas concordarem com a pesquisa e lavra de minérios em suas terras, é um tiro no próprio pé, pois assinala o fim de sua existência como povo. Serão vítimas do que chamo de “auricídio”: o ouro ou outro minério mata suas relações comunitárias e os fará sucumbir a um consumismo letal. A presença de não-indígenas fará estímulos não-indígenas se sobreporem a seus costumes e tradições. Nenhum povo indígena sai ileso da mineração em seu território. Não esqueçamos também o risco de contaminação dos rios e do meio-ambiente em que a mineração implica. A extração de ouro industrial exige a retirada de toneladas de terra e rocha. Para cada tonelada, um grama de ouro será retirado. O problema é que o processo vai expor o arsênio contido na rocha, que, em caso de vazamento para o rio, pode ter consequências mortais para as comunidades indígenas que vivem das águas do Xingu. Para o mesmo um grama de ouro, são liberados até sete quilos de arsênio, “que é altamente tóxico“. Essa  advertência divulgada no site do MPF/PA dispensa qualquer comentário.

Greenpeace Brasil: Alguns criticam a encíclica do Papa Francisco, que teve o auxílio do senhor em sua formulação, por conter um discurso anticapitalista, uma vez que ele nos convida a rever alguns hábitos da nossa cultura, como o consumismo exagerado. Muitos opõem conservação ambiental com o crescimento do país, como se fosse possível apenas uma coisa ou outra. A seu ver, essa dicotomia é real?  

Dom Erwin Kräutler: Ao ler as raras críticas à Encíclica “Laudato Si” do Papa Francisco, logo me dei conta de que seus autores ou não leram o documento ou o leram superficialmente ou o leram movidos por preconceitos. Dou como exemplo o recado dado ao Papa pelo candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Jeff Bush. Sem o acanhamento, sentencia que o papa teria feito melhor se deixasse “assuntos de ciência aos cientistas”. Com o comentário, revela que não entendeu nada, pois a encíclica não tem a pretensão de ser um tratado científico. Na realidade, alguns políticos conservadores e empresários consideram o Papa “liberal demais”, por sua abertura a questões sociais e sua crítica a um capitalismo selvagem, gerador de miséria e exclusão social. A encíclica não se restringe aos católicos, pois a questão do meio-ambiente ultrapassa qualquer fronteira confessional. Trata da sobrevivência da humanidade. É absurdo colocar o crescimento do país em oposição aos cuidados que o meio-ambiente exige. Optar por um crescimento que deteriora o meio-ambiente é cortar o galho em que estamos sentados. O Papa lança “um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós“ (LS 14). Lamenta que “a terra, nossa casa, parece se transformar num imenso depósito de lixo“ (LS 21). Insiste que “a humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam“ (LS 23). E dá seu recado em vista da Conferência Mundial do Clima em Paris dizendo: “A submissão da política à tecnologia e à finança se demonstra na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos“ (LS 54). Quem de nós que nos engajamos na Amazônia e lutamos contra a exploração inescrupulosa desse macro-bioma e em defesa dos povos que habitam esta terra não se sente apoiado quando lê as palavras do Papa? “É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais“ (LS 38). Quanto aos povos indígenas o Papa Francisco enfatiza: “É indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura“ (LS 146).
 
Greenpeace Brasil: Para finalizar, é sabido por meio de diversos estudos que as terras indígenas são uma das formas mais efetivas de prevenção do desmatamento, que é um dos grandes responsáveis pelas emissões de gases efeito estufa na atmosfera. No entanto, o ano de 2014 foi marcado pela morosidade do Poder Executivo em assinar e homologar terras indígenas já demarcadas e sem nenhum impedimento legal. O senhor acredita que um dos caminhos para o Brasil se firmar líder no combate às mudanças climáticas seria ampliar o número de territórios indígenas?
 
Dom Erwin Kräutler: A demarcação das terras, além de ser um direito constitucional dos povos indígenas e a garantia de sua sobrevivência física e cultural, contribui também para salvar pelo menos parte da Amazônia. A história recente da região Alto Xingu da Prelazia do Xingu, no Pará, ilustra a tese de que a demarcação de áreas indígenas tem imensa importância para o conjunto da Amazônia. São Félix do Xingu emancipou-se de Altamira em 29 de dezembro de 1961. Estive pela primeira vez nesse município em 1967. Sobrevoando naquele tempo a região, só se via selva e água e as minúsculas clareiras da sede do município e das aldeias indígenas do povo Kayapó. Jamais esqueço o impacto deste mundo de todas as nuances e tonalidades de verde do qual emergiram os ipês em flor, lilás ou dourados. Em menos de meio século, quase nada restou da paisagem deslumbrante. O paraíso foi arrasado, a biodiversidade em grande parte destruída e a terra desnudada. Hoje, sobrevoando a região, pode-se ver onde terminam as áreas indígenas demarcadas e começa a melancólica vastidão das áreas desmatadas. O que sobrou de vegetação originária são apenas as áreas indígenas demarcadas. Esses dados demonstram por si que a demarcação de áreas indígenas junto aos parques nacionais – que representam pouco mais de um milhão de quilômetros quadrados ou 26% da Amazônia Brasileira – é uma forma de salvaguardar parte da Amazônia contra a fúria do agronegócio, das empresas mineradoras e hidrelétricas. A demarcação das áreas indígenas prevista na Constituição e um recomendável aumento de número de parques nacionais granjearia ao Brasil o respeito da comunidade internacional pois mostraria ao mundo a determinação em fazer sua parte para “mitigar a mudança climática” já que a “perda das florestas tropicais piora a situação” (LS 24). Ler original AQUI.

 

 

29 de julho de 2015

Informativo de Conselho Aty Guasu Guarani, Kaiowa e Terena no Mato Grosso do Sul

Povos indígenas Terena, Guarani e Kaiowá decidem reocupar todas as terras indígenas.
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O governo federal paralisa e engaveta o processo da demarcação e regularização das terras indígenas no Mato Grosso do Sul. A justiça Federal utiliza “marco temporal” para cancelar a demarcação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul, permitindo as violências e genocídio contra os povos indígenas. Diante dessa decisão do governo federal e justiça federal os povos indígenas Terena, Guarani e Kaiowá decidem definitivamente recuperar as terras indígenas.
 A decisão de povos indígenas é não esperar mais por governo e justiça do Brasil. Mais de 10 mil guerreiros e as guerreiras Guarani e Kaiowá se encontram preparados e apoiam a resistência do povo Terena nas terras reocupadas. A partir de 2015, os povos indígenas decidem retomar posse de todas as terras indígenas Terena, Guarani e Kaiowá.
A decisão de povos Terena, Guarani e Kaiowá é para reocupar as terras, resistir nas terras e morrer pelas terras. No Mato Grosso do Sul mais de 50 mil indígenas se encontram articulados e preparados para resistir e lutar pela posse de todas as terras indígenas. É única palavra e posição dos povos Terena, Guarani e Kaiowa é não haverá negócio e nem recuo, é retomar posse das terras indígenas, é resistir nas terras, se for preciso, é morrer pelas terras.
Povos indígenas Terena, Guarani e Kaiowá decidem em reocupar a todas as terras indígenas.

Genocídio Silencioso: Jovem Guarani de 19 anos comete suicídio no Tekoha Jevy, no Paraná

GUAIRA-INDIA-DE-19-ANOS-COMETE-SUICIDIO-EM-ALDEIAPortal Guaíra
Por volta das 14h45 do dia 27 de julho de 2015, enquanto muitos brasileiros assistiam a rede Globo de Televisão, ou acessavam seus facebooks, ou ainda tomava café no trabalho, a Polícia Civil de Guaíra, município do oeste do Paraná, foi comunicada pela Unidade Central de Saúde, que uma jovem indígena havia se suicidado.
 
A jovem vivia na Aldeia Guarani Tekohá Jevy, onde residem em torno de 69 famílias, num total de 390 pessoas, e aguardam a regularização de sua Terra Indígena.
 
O local, localizado aos fundos do Aeroporto Municipal de Guaíra, onde Policiais Civis foram recebidos pelo Cacique Anatalio Ortiz, que prontamente mostrou onde a indígena havia tirado a própria vida, é mais uma das aldeias que sofrem pela pressão do plantio de transgênicos, soja como principal, e as organizações de proprietários não-indígenas que insistem em não reconhecer o povo Guarani no município que leva o nome Guaíra, da língua Guarani.
 
Cristina Benitez, de 19 anos, morreu pendurada numa corda que laçava seu pescoço. A corda estava amarrada no galho de uma árvore em meio a mata e Cristina entregou-se de joelhos, sobre a terra que agora habitará, eternamente, aguardando que seja devolvida ao seu povo. Ver original AQUI.

 

28 de julho de 2015

Aty Guasu afirma não querer guerra, mas que Guarani e Kaiowá seguirá lutando por territórios



Cimi Regional Mato Grosso do Sul e Aty Guasu
 
 
Durante a semana passada, as manifestações sagradas dos Guarani e Kaiowá, entoadas, cantadas e dançadas ao som dos mbarakás, se unificaram para fazer romper o cerco de violência e violações que novamente se intensificaram contra o povo.  Entre os dias 14 e 18 de julho, em Arroio Kora, Paranhos, cone sul do Mato Grosso do Sul, durante realização da Grande Assembleia do povo Guarani e Kaiowá, a Aty Guasu, indígenas de todas as regiões, aldeias e acampamentos do estado reuniram-se para proclamar o direito à vida e ao território, além de cobrar o cumprimento de seus direitos constitucionais. Yvy, Teko e Ñee (Terra, Cultura e Língua) foram as bandeiras de luta afirmadas por todos os presentes, do mais jovem ao mais velho dos indígenas.
         
Na presença do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, deputado Paulo Pimenta, desembargadores, procuradores federais e representantes nacionais da Funai, os Guarani e Kaiowá denunciaram as articulações dos sindicatos rurais e políticos para ações que pregam a violência direta contra os povos indígenas, cobrando posicionamento dos órgãos e punição de discursos de incitação ao ódio proferido por deputados ruralistas e amplamente ventilado na mídia.
 
Por intermédio de uma carta aberta destinada às autoridades brasileiras, os Guarani e Kaiowá enfatizaram que não desistirão da luta pelos seus territórios ancestrais, cobrando mais uma vez que o Executivo cumpra com seu papel de demarcar as terras indígenas, única medida que pode colocar fim a situação de genocídio que se acirra cada vez mais em meio contra os povos originários.
 
“Neste Grande Encontro todos concordamos que a luta seguirá e que nossas retomadas seguirão. Do mais novo e pequeno de nós até o mais velho, nosso Rezador, nosso cacique, nossa liderança, nosso professor, nossa mulher, nosso jovem, nosso agente de saúde, todos os presentes estão prontos para continuar a retomada de nossos territórios e nós dizemos aos senhores e senhoras que não recuaremos um só passo”, diz trecho da carta divulgada pelos indígenas.
 
Leia na íntegra:  
 
Carta da Grande Aty Guasu de Arroio Korá às autoridades brasileiras
 
Senhores e senhoras autoridades. Falaremos pouco e de maneira direta neste documento. Usaremos poucas palavras porque muita coisa já foi dita, muito documento já foi entregue e mesmo assim muita pouca coisa até então foi feita. A presidência e os Ministérios SABEM de tudo que acontece com nosso povo e são cúmplices do agronegócio e até mesmo parceiros daqueles que nos massacram e sempre nos massacraram.
 
Por isso, nós, Guarani e Kaiowá de todas os Tekoha do estado do MS. presentes em nossa grande assembleia – ATY GUASU – embalados pelo som do Mbaraka de nossos Nhanderu e Nhandecy, rezadores e rezadoras, decidimos que já é hora de falarmos menos e agirmos mais para defender de uma vez por todas os princípios daquilo que nos mantem como povo, NOSSA YVY, NOSSO TEKO e NOSSO NEE.
 
Neste Grande Encontro, todos concordamos que a luta seguirá e que nossas retomadas seguirão. Do mais novo e pequeno de nós até o mais velho, nosso Rezador, nosso cacique, nossa liderança, nosso professor, nossa mulher, nosso jovem, nosso agente de saúde, todos os presentes estão prontos para continuar a retomada de nossos territórios e nós dizemos aos senhores e senhoras que não recuaremos um só passo. A partir das retomadas e da luta pela terra buscaremos todos os nossos direitos, na saúde, na educação, nas políticas básicas e em tudo que fortaleça nossa cultura, nossa autodeterminação e nosso modo de ser originário.  
 
Com isso, não estamos dizendo que vamos provocar a Guerra contra o KARAI, mas dizemos com todas nossas palavras e com todo nosso coração que com toda certeza resistiremos com força aos ataques dos três setores do Estado brasileiro, do governo do Estado do MS, do agronegócio, do desenvolvimentismo e das forças de segurança. Não queremos a guerra, mas não fugiremos dela quando fugir significa ver nosso povo morrendo na beira das estradas ou mendigando por condições mínimas de vida humana e de espaço dentro de nossos próprios territórios originários e sagrados.
 
Vocês, senhores e senhoras que se dizem autoridades, deveriam se envergonhar pela parte que cabe a cada um de vocês no genocídio que é praticado contra nosso povo. A cada dois dias e meio um Kaiowá morre no Mato Grosso do Sul. Todos sabem quem são os assassinos e este crime é praticado a céu aberto, em horário nobre e até mesmo dentro das estruturas que os senhores e senhoras insistem em chamar de casas da democracia.
 
Hoje, tudo está ligado. O governo estadual coloca abertamente a estrutura do estado, setor jurídico e forças de segurança (D.O.F) para garantir a continuidade do roubo de nossos territórios e do extermínio do nosso povo. Isso esta registrado. Os ruralistas fazem reuniões abertas nos fóruns do Estado e em especial na Assembleia Legislativa como se estivessem em seus sindicatos rurais. Com o apoio do governador e de seus secretários, deputados e ruralistas fazem discursos de morte contra nosso povo, que se transformam na perseguição de nossas lideranças e no ataque direto contra nossos Tekoha.  É a pratica concreta do genocídio presente nas palavras e discursos de ódio dos deputados da bancada ruralista que desmontam nossos direitos constitucionais através da PEC 215, PL 227, PL 01216 e tantos outros decretos de morte.
 
Os ruralistas avançam contra a Constituição em Brasília e contra o povo Guarani e Kaiowá nos nossos Tekoha, porque o próprio executivo garante a eles a paralisação da demarcação de nossas terras e a não publicação e continuação dos estudos de identificação, negando desta forma nosso mais sagrado direito. E para demonstrar ainda mais sua lealdade com o agronegócio, ataca de forma direta nossos direitos através da AGU com a portaria 303 e com o ministro da Justiça, suas minutas e mesas de dialogo. Igual o que faz o estado do MS, o MJ e a Presidência vem se colocando há muito tempo a disposição do ruralismo, e dos setores dominantes e exploradores.
 
Quanto ao novo presidente da Funai, sabemos que o ministro da Justiça já determinou que ele não continue os estudos de nossos Tekoha, que acabe com nossas retomadas e até mesmo puna servidores da Funai que cumpram com suas obrigações. Dizemos que os Guarani e Kaiowá querem dialogar e serem amigos do senhor presidente, mas isso irá depender de qual lado ele escolher. Denunciaremos todo e qualquer desrespeito a nossos direitos, repressão a nossas comunidades e sucateamento das estruturas locais da Funai.    
  
Enquanto tudo isso ocorre, o Poder Judiciário, através da segunda turma do STF, onde os ministros deveriam ser os guardiões da Constituição, revisam, reduzem e anulam nossas terras já demarcadas através do “Marco temporal”, que impõe de forma criminosa e de má fé que nossas terras só podem ser demarcadas se comprovarmos que estávamos sobre elas em 05 de outubro de 1988 mesmo que os ministros tenham consciência de que muitos entre nós não justamente não estávamos sobre nossas terras porque fomos sequestrados pelo Estado e carregados para reservas criadas pelo próprio Estado ao mesmo tempo que fomos expulsos também pelas balas dos fazendeiros em parceria com o pau de arara e os campos de concentração dos militares.
 
Nosso povo, por causa do marco temporal e das demais estratégias do ruralismo junto com a justiça, enquanto não tem suas terras demarcadas é despejado pelos juízes locais pagando pelos crimes que o Estado e Governo cometem para que os fazendeiros e os donos dos empreendimentos fiquem ainda mais ricos com a exploração de nossas terras.
Por isso nossa primeira decisão coletiva e unificada é que não haverá nenhum despejo de famílias do nosso povo. Nós nos juntaremos e resistiremos até a morte para defender nossas Tekoha. Tey Jusu, Itágua, Pindoroky, Kurusu Amba, Guyviry e Apykai e todas as outras que sofrerem ataques da justiça pertencem a todo o povo Guarani e Kaiowa e serão defendidos por todo nosso povo.
 
Falando de Apyka’i, onde o despejo já foi determinado, avisamos que marcharemos de todos os lugares e resistiremos às decisões criminosas do juiz Fabio Kaiut Nunes, o qual acusamos de defender o agronegócio, de propor genocídio e de libertar das decisões da lei os assassinos de nosso povo. Para alem de decretar a morte de Damiana e das famílias de Apyka’i após intervir nas tentativas humanitárias do Ministério Público Federal de garantir as mínimas condições de vida e território para Apyka’i ainda liberou os assassinos da Gaspem (empresa privada de segurança) do pagamento de indenização de bens coletivos para a comunidade de Guayviry onde estes jagunços assassinaram Nísio Gomes, nossa grande e querida liderança. Depois isso, com a estrutura do Estado e da União a disposição, os fazendeiros, junto com DOF e com GASPEM começaram a atacar novamente nossos Tekoha promovendo atos de terror contra nossas comunidades e perseguindo nossas lideranças.
 
Nossa segunda decisão coletiva é que não recuaremos um só passo de nossas retomadas e dizemos abertamente que enquanto o governo não garantir nosso direito, dar continuidade aos estudos, demarcar e desintrusar nossos territórios, nossas retomadas irão continuar com cada vez mais força. É uma decisão de todo nosso povo e é a única opção que temos de garantir a salvação de nossas terras sagradas. A partir de nossa principal arma, o mbaraká, a terra voltará para nossos velhos e jovens e viveremos plenamente nossa cultura e nossos modos antigos.
 
Lembramos ao Executivo que seu papel para impedir conflitos e garantir a ordem é cumprir com sua obrigação constitucional de demarcar nossos territórios e não organizar força tarefa para retirar indígenas de suas terras sagradas para despejar na beira das rodovias. Se o Ministro da Justiça tentar avançar contra nossas retomadas isso só fará aumentar o numero de mortes que os ministros e a presidência já carregam nas suas costas.
 
Para finalizar, reafirmamos que cada um de nós, Guarani e Kaiowa que morrer por conta dos ataques dos fazendeiros e da violência do Governo não serão mais enterrados e esquecidos nos fundos de fazenda ou na beira de rodovias. Levaremos seus corpos e os enterraremos na explanada dos ministérios para que vocês vejam todos os dias as cruzes que vemos e que tenham que conversar com a consciência cada vez que forem rasgar a constituição federal e massacrar nosso povo em nome dos interesses políticos e econômicos que fazem vocês trair o Brasil e seus filhos mais antigos.
 
Aty Guasu – Grande Assembleia Guarani e Kaiowá
Paranhos, 18 de julho de 2015   
 
Ler original AQUI. 

Povo Terena retoma três fazendas da TI Taunay/Ipegue, em Mato Grosso do Sul

 
Assessoria de Comunicação Cimi
 

Cerca de 500 indígenas do povo Terena retomaram, na madrugada desta segunda-feira (27), três fazendas que estão localizadas dentro da Terra Indígena Taunay/Ipegue, no município de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Juntas, as áreas somam 6 mil hectares.

O procedimento administrativo de ampliação da área, demarcada originalmente em 1905 pelo marechal Cândido Rondon, tramita há quase 30 anos. Em janeiro de 2009, foi encaminhado da Fundação Nacional do Índio (Funai) ao Ministério da Justiça e, desde então, encontra-se paralisado, junto com outros 16  processos, aguardando a assinatura da Portaria Declaratória pelo ministro José Eduardo Cardozo.

A liderança Alceri Terena explica que o povo decidiu retomar o território devido à morosidade na regularização de suas terras.  “Estamos cansados de esperar. As negociações [com fazendeiros do estado] estão engavetadas e o processo da nossa demarcação também. E se nossa ocupação não tiver nenhum resultado vamos fazer mais retomadas”, afirma a liderança.

Os indígenas dividiram-se em três grupos e cada um ocupa a frente da sede das fazen
das. “Tá tudo tranquilo, demos um prazo de 24 horas para os fazendeiros retirarem os pertences deles e o gado”, disse o cacique Isais, que reforçou a determinação do povo em permanecer na terra. Os Terena asseguraram que até o momento não houve nenhum tipo de violência contra o grupo, que agora já soma cerca de mil pessoas, entre homens, mulheres, crianças e idosos. Os indígenas afirmam que têm suprimentos de comida e água.

"Avisamos aos governantes deste país, se não demarcarem nossas terras tradicionais, nós povo terena vamos retomar uma por uma das nossas terras tradicionais ocupadas pelos fazendeiros", diz comunicado divulgado pela página ‘Resistência do Povo Terena’ no Facebook. Leia abaixo na íntegra:

"O Povo Terena cansou de esperar a boa vontade do Estado brasileiro! Está claro que a política atual do Brasil não é para índios brasileiros, o progresso tem os seus donos, os grandes barões que comandam este Brasil para uma verdadeira escassez. A Constituição do Brasil, de 1988, assegurou aos povos indígenas à demarcar as terras tradicionais 5 anos após promulgação em 1988 que nada foi cumprida. Já se passaram mais de 26 anos de promessa. Durante estes anos várias vidas indígenas foram ceifadas. Reafirmamos que vamos sim lutar e fazer ser respeitado todos os nossos direitos". Ler original AQUI.

24 de julho de 2015

LUTO! Jovem líder da Aty Guasu é assassinado a golpes de facãoo (MS)

Por Tereza Amaral


ABr _ Arquivo
Enquanto o casal Valdelice Veron e Natanel Caceres denuncia em turnê pela Europa a matança de indígenas Guarani-Kaiowá (MS), mais um jovem  ontem foi barbaramente assassinado.
Josias Vilharva Paulo, 18 anos, que fazia parte dos jovens da Aty Guasu foi executado a golpes de facão. A imprensa local noticia como crime de latrocínio (assalto seguido de morte), mas uma liderança, cuja fonte será mantida sob sigilo, afirma tratar-se de mais uma execução a mando de fazendeiros.
 
Segundo a fonte, o jovem era do tekoha Teyjuju. "Nessa região  fazendeiros estão mandando (cooptando) até parentes para matar na área de retomada".
 
Ema matéria do portal Folha de Dourados, a notícia é de latrocínio. O jovem teria reagido ao roubo da moto, no final da tarde, em uma região da Fazenda Gauchinha, em Caarapó.
 
Ainda na matéria, e de acordo com boletim de ocorrência, o jovem líder Josias Paulo - não divulga nome completo, conforme repassado a este Blog - conduzia sua Honda CG 150 com a namorada na garupa. Ela não presenciou o crime porque teria pedido para ele parar a fim de fazer necessidade fisiológica na mata.
 
O jovem líder da Aty Guasu foi golpeado na cabeça e arrastado para a  lavoura. A namorada ao retornar , ainda segundo a FD, pediu socorro em uma casa próxima ao local do crime. O assassino levou a motocicleta da vítima e o caso registrado como roubo seguido de morte na Delegacia de Polícia Civil de Caarapó, distante 282 quilômetros de Campo Grande. 

ACOMPANHE PIMENTA NA TV CÂMARA

 
Rede Social FB


 O deputado Pimenta é um dos convidados do programa Brasil em Debate da TV Câmara, que será exibido hoje, às 22h30. Ataques contra comunidades Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul é a pauta do programa.

Acompanhe ao vivo em:
http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/tv...

Como sintonizar a TV Câmara? Saiba mais: http://goo.gl/Rg9ygo

23 de julho de 2015

"Quando morre boi de frio sai na primeira página do jornais; as crianças Kaiowá que morrem do frio não saem"

Foto _ Skate Sol Delmondo
 

Enviado para Amazônia Brasil Brasileiro*
 
Com o cajado do pai cacique Marcos Veron na mão, nesta quinta-feira a liderança Valdelice Veron participou com o marido Natanael Caceres, ambos da Aty Guasu, de mais uma programação na primeira turnê  pela Europa. Em trecho da entrevista ela denunciou o tratamento dado pela imprensa do Mato Grosso do Sul ao seu povo. Confira no vídeo abaixo:
 
video

*NOTA
 
O material foi enviado pela leitora da Fanpage Amazônia:Brasil Brasileiro que também é de minha propriedade.

Em Paris, Guarani Kaiowá protestam contra 299 mortes

IHU
O desmatamento do Mato Grosso do Sul para o cultivo de soja e cana de açúcar está provocando o lento genocídio dos índios que moram no Estado. É o que acreditam Guarani-Kaiowá, que se manifestaram ontem em Paris, na França.
– Estamos aqui para pedir socorro e ajuda, não apenas pelas florestas e pela natureza, mas também pela vida – afirmou Valdelice Veron, filha de um cacique guarani-kaiowá assassinado por um fazendeiro em 2003.

Rezadora Xurite Lopes, 73 anos,
assassinada em Kurusu Amba
Foto OAB _ Manipulada*

Assim como o pai de Valdelice, 299 índios da comunidade morreram nos últimos 10 anos em razão de conflitos agrários. O grupo tem a segunda maior população indígena do Brasil, com 45 mil membros.
A informação é publicada no jornal Zero Hora, 23-07-2015.
Ameaçada de morte, ela viajou pela primeira vez para fora do país, acompanhada pelo cacique Natanael Vilharva-Cáceres. Os dois participaram ontem da Cúpula das Consciências, um encontro de reflexão convocado pela França paralelamente às negociações para um acordo global sobre a mudança climática no final do ano. Eles afirmam que essas mortes são perpetradas por milícias privadas contratadas por grandes proprietários de plantações de soja e cana.
No mira dos índios estão as plantações extensivas de soja transgênica que prosperaram impulsionadas pela demanda massiva da China e das grandes empresas que exploram o “petróleo verde” dos agrocarburantes usados na produção de etanol.
– A soja e o etanol que vocês consomem estão misturados com o sangue guarani-kaiowá – disse Valdelice em Paris.
Valdelice explicou que o processo de atribuição de terras aos índios tem três etapas: a identificação antropológica, na qual devem dar provas de que as terras pertencem a eles, uma análise do Superior Tribunal Federal, encarregado de redigir o decreto de demarcação, e o aval final da presidência.
Segundo ela, 22 decretos de homologação esperam a assinatura de Dilma Rousseff. A nação Guarani Kaiowá mobilizou as redes sociais em 2012, quando passou a protestar por seus direitos
 
Amazônia Legal em Foco
 
Leia histórico de violência em Kurusu Amba, onde foi brutalmente assassinada a  rezadora Xurite Lopes, 73, em matéria do Cimi AQUI.
 
Vale a pena postar novamente Documentário I À Sombra de um Delírio Verde. Confira Abaixo:



*NOTA
 
Caros leitores, a foto acima da CEAI (Comissão Especial de Assuntos Indígenas - OAB MS) foi manipulada porque em original é impublicável,  mas o mundo precisa saber sobre os fatos.